Presença dos pais facilita adaptação das crianças à nova escola

24/01/2007 - 15:59
Camila Ranzi
As últimas semanas têm sido agitadas para o pequeno Gustavo de 1 ano e dez meses. Acostumado à horas inteiras em frente a televisão, o garoto desde o dia 8 deste mês tem experimentado uma avalanche de novidades. Se antes seu cotidiano estava reduzido aos muros de casa, agora as manhãs do pequeno estarão repletas de atividades pedagógicas e diversão no amplo espaço da Escola Ápice. Contudo, o começo não foi fácil.

Apesar da mãe, Cíntia Salles Brandolis Gregório, ter decidido que uma escola seria a melhor opção para o desenvolvimento do filho, nos primeiros dias a apreensão foi grande. “Eu ficava muito angustiada quando o via chorar”, lembra.

Apegado a mãe, Gustavo não queria largar dela nem por um minuto. Entretanto, duas semanas depois, era a escola que o pequeno não queria mais deixar. “Quando fui buscá-lo, ele estava abraçado e beijando a professora. Chorou por ter que ir embora”, conta Cíntia com um ar de orgulho e alegria.

Marta Biteti, coordenadora da Escola Ápice considera natural a insegurança de Gustavo nos primeiros dias. “Conviver em um ambiente diferente daquele compartilhado até então com os pais é muito doloroso para a criança” explica. Sem saber o que vai acontecer é normal que ela tenha medo. “Nós adultos também ficamos ansiosos quando nos deparamos com um novo quadro”, pondera a especialista.

Por isso, a participação dos pais é crucial para este processo de adaptação. Com os pais ao lado, elas aceitam com mais facilidade a rotina do novo ambiente. Assim, para que o Gustavo se adaptasse ao novo contexto, Cíntia teve que seguir à risca as dicas das coordenadoras da escola. Nos primeiros dias, o acompanhou durante o período em que ele ali ficava. Contudo, assim que o pequeno se acostumou ao ambiente e às professoras, a mãe paulatinamente “saiu de cena”.

Sem a mãe no ambiente escolar, o tempo de permanência do garoto foi reduzido. A idéia era mostrar a ele que ela não o havia abandonado. Com os dias, este período foi aumentado gradualmente até que ele conseguiu completar as quatro horas sem chorar pela mãe.

Da mesma forma que Gustavo, a maioria dos novos alunos da Ápice seguem este roteiro de adaptação. Os resultados, contudo, variam. Há aqueles que demoram meses para se adaptar, outros que já nos primeiros dias dispensam a presença dos pais em sala. Marta conta que há ainda aqueles que nas primeiras semanas se dão bem com a escola, mas que logo depois não querem mais voltar. “Uma vez que elas necessitam explorar o novo ambiente, nós as deixamos mais livres nos primeiros dias. E, por isso, muitas crianças acham este período maravilhoso”, observa Marta. “Contudo, com o passar do tempo, vamos apresentando os necessários limites. E, elas realmente não gostam disso”. Assim, é normal que depois de algumas semanas as crianças que já pareciam adaptadas, comecem a inventar mil desculpas para não ir à escola.

Ante a isso, Marta aconselha os pais a manterem um diálogo com os filhos sobre os aspectos positivos da escola. “Eles devem demonstrar o valor desta nova experiência na vida da criança”, aponta. Ademais, é importante que elas percebam um vínculo entre a escola e a família. Para isso, as professoras da Ápice fazem anotações diárias nas agendas da criança contando as atividades realizadas em sala. Com estas informações, os pais podem mostrar aos pequenos que sabem o que está acontecendo com eles. “Ao notar que a escola está unida com seus pais, as crianças ficam mais seguras”, opina Marta.

Outra dica importante, é que nos primeiros dias os pais não cheguem atrasados no horário da saída dos filhos. Ao ver os outros coleguinhas indo embora, as crianças novas começam a ficar desesperadas. Pensam que foram abandonadas. Por isso, Marta aconselha os pais a chegarem até mesmo um pouco antes do horário combinado. “Criança em adaptação nunca deve ser uma das últimas a ir embora, antes deve ser a primeira”.

Aperto no coração

O medo comum nos primeiros dias de aula não está restrito apenas aos pequenos corações. Para muitos pais esta nova fase na vida dos filhos significa preocupação e desconfiança. “È comum que aqueles que, por motivos profissionais, são obrigados a colocar os filhos na escola sintam-se culpados e, por isso, fiquem bastante inseguros”. Ante a ansiedade dos pais, a criança acaba tendo mais dificuldade para se acostumar à escola. “E a família passa a sofrer, então, de um intenso stress emocional”, percebe Marta.

Apesar da insegurança em deixar o filho com os terceiros seja normal, Marta aconselha os pais a confiar na opção que fizeram. “Se eles já conhecem a linha pedagógica da escola, devem ficar tranqüilos e não deixar a insegurança transparecer para a criança”.

Por isso, a coordenadora novamente aposta na integração como um antídoto para esta ansiedade. Esclarecer dúvidas, conversar com a equipe da escola, visitar a instituição com uma certa freqüência são atitudes que Marta aponta.

Além disso, ela argumenta que os pais devem ter consciência de que não são os únicos a viver este processo e assim, devem conversar com as outras famílias, trocar idéias, emoções e expectativas. Diante da experiência dos outros a insegurança é amenizada. Na Ápice, ao final do primeiro mês de aula os pais dos novos alunos se reunirão com as coordenadoras para conferir um relatório e um vídeo sobre a adaptação do filho.

È importante ponderar que a educação institucionalizada é o melhor caminho para o desenvolvimento cognitivo, emocional e físico da criança. “È na escola que a criança vai ganhar novos horizontes, novas amizades, novos comportamentos”, enumera Marta. Apesar do processo de adaptação ser doloroso para criança e para a família, é um caminho necessário para o crescimento.

Volta às aulas, não!

Se período de férias é sinônimo de diversão, nenhuma rotina e poucas regras, o início das aulas sempre conspira o oposto. È tempo de acordar cedo, cumprir tarefas e ter muita disciplina. Não sem motivo, muitas crianças nesta época começam a oferecer resistência. Para combater isso, Marta aconselha “faça da volta às aulas um motivo para seus filhos se empolgarem”.

Uma semana antes conduza a criança à rotina do período escolar novamente. “Coloque-as para acordar e dormir no horário certo”. Mas, também as estimule para o reinício das aulas – época de rever os amigos, conhecer a professora nova, ter um material novo. “É interessante que os pais a motive a aguardar aquele momento com uma ansiedade positiva”.

Na Ápice, o primeiro dia das aulas, que este ano será na segunda 5 de fevereiro, é marcado por uma espécie de “ritual de passagem”. Já que os pequenos vêm das férias ansiosos para rever a professora antiga e os amiguinhos, nas primeiras horas do período eles se re-encontram com a turma na sala em que estiveram no ano passado. Depois de contarem as novidades, são apresentados a nova professora e guiados para a sala nova. “Nesta passagem valorizamos a idade deles. Eles adoram se sentir grandes”, conta Marta.

Como este dia é dedicado para esta transferência, os novos alunos não vão a escola. Assim, os “veteranos” são preparados para a recepção dos novos colegas. “Falamos os nomes dos novos e até alguns aspectos físicos. E, pedimos a ajuda deles para apresentar a escola”. No dia seguinte, quando os novos chegam, a sala já está animada para fazer amizade e contar como é a rotina da Ápice. Logo todos estão brincando juntos.

E, enquanto alguns pais estão ansiosos, os pequenos já estão ganhando novos amigos, vivências e crescimento. Ir para uma escola nova pode parecer amedrontador a princípio, contudo é uma ótima oportunidade para amadurecer e aprender a conviver em sociedade.
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